{"id":13556,"date":"2022-04-06T08:58:30","date_gmt":"2022-04-06T09:58:30","guid":{"rendered":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/?page_id=13556"},"modified":"2022-05-13T11:48:35","modified_gmt":"2022-05-13T12:48:35","slug":"vinho-dos-casteletes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/?page_id=13556","title":{"rendered":"Vinho dos Casteletes"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cVinho de S\u00e3o Jorge dos Casteletes\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ao falar da ilha de S\u00e3o Jorge, e mais concretamente do ponto de vista econ\u00f3mico, o primeiro pensamento que nos vem \u00e0 mente \u00e9 de que esta \u00e9 a \u2018Ilha do Queijo\u2019, uma Ilha farta de pastagens, com uma produ\u00e7\u00e3o leiteira significativa e onde se fabrica o mais que reconhecido Queijo S\u00e3o Jorge DOP.<\/p>\n<p>Verdade seja dita, a liga\u00e7\u00e3o do Jorgense \u00e0 terra vem desde a coloniza\u00e7\u00e3o da Ilha, onde se destacam os lactic\u00ednios, embora nem sempre assim tenha sido.<\/p>\n<p>A Ilha de S\u00e3o Jorge foi conhecida, durante mais de tr\u00eas s\u00e9culos, por ser onde se produzia bom vinho e onde a vitivinicultura desempenhou um papel de grande relevo em termos econ\u00f3micos, tendo sido mesmo a mais importante exporta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ao s\u00e9c. XIX, altura em que a sua produ\u00e7\u00e3o foi drasticamente prejudicada, devido a dois fat\u00eddicos fatores que falaremos mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um facto que talvez seja desconhecido de muitos nos dias de hoje, mas que n\u00e3o passou despercebido a alguns historiadores e por aqueles que por estes mares passavam, como foi o caso de Andr\u00e9 Brue, Governador e Diretor Geral do Senegal <em>(1) <\/em>que, por volta de 1703, referia-se \u00e0 ilha de S\u00e3o Jorge como uma ilha onde se produzia muito vinho.<\/p>\n<p>Dizia Jo\u00e3o Soares de Albergaria de Sousa <em>(2)<\/em> que em S\u00e3o Jorge est\u00e1 o \u201c<em>clima mais delicioso dos A\u00e7ores<\/em>\u201d, sendo o seu solo \u201c<em>o mais f\u00e9rtil sobre as costas\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Segundo o autor, nascido a 16 da Janeiro de 1776, nas Velas, \u201c<em>as produ\u00e7\u00f5es desta Ilha s\u00e3o da melhor qualidade, onde o vinho \u00e9 reputado como o melhor dos A\u00e7ores, superior ao de S. Miguel e Terceira, com uma exporta\u00e7\u00e3o de duas mil pipas de vinho<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Para este ilustre historiador Velense, \u201c<em>a Urzelina \u00e9 uma aldeia c\u00e9lebre e famosa pelos seus generosos vinhos brancos do lugar dos Casteletes. Seus habitantes cultivam as melhores vinhas dos A\u00e7ores\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 exatamente das vinhas deste lugar dos Casteletes, que sa\u00eda da Ilha o melhor vinho do Arquip\u00e9lago, e a sua import\u00e2ncia era tanta que <em>uma provis\u00e3o de El\u00b4Rei D. Jo\u00e3o V de 30 de Julho de 1716, ordena a cobran\u00e7a de um imposto de um real em cada canada de vinho e aguardente produzido na ilha, para a constru\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara de Velas <\/em><em>(3)<\/em>.<\/p>\n<p>Sobre a sua exporta\u00e7\u00e3o, Silveira Moniz<em> (4)<\/em>, adianta que o movimento comercial dos A\u00e7ores se faz com transa\u00e7\u00f5es com Continente do Reino, Am\u00e9rica do Norte, Inglaterra e Alemanha, onde se exportam alguns produtos e recebem em troca outros.<\/p>\n<p>J\u00e1 Jos\u00e9 C\u00e2ndido da Silveira Avelar <em>(5)<\/em> dizia que a vinha nesta ilha n\u00e3o esqueceu aos primeiros colonos, procurando para sua planta\u00e7\u00e3o os terrenos mais apropriados, ingratos \u00e0 cultura de cereais, sendo por isso que a regi\u00e3o vinhateira se estende ao sul da ilha, desde o lugar da Ribeira do Almeida at\u00e9 \u00e1 Faj\u00e3 das Almas.<\/p>\n<p>Segundo este, o s\u00edtio dos Casteletes, na Freguesia da Urzelina, em que apenas se compreende um trato de terreno de alguns hectares, era o que produzia o melhor vinho dos A\u00e7ores, como classificavam os antigos apreciadores. Das diferentes castas d\u2019uvas as de melhor qualidade em vinho e produ\u00e7\u00e3o eram o verdelho e o terrantez.<\/p>\n<p>Refere o antigo Escriv\u00e3o da Administra\u00e7\u00e3o do Concelho de Velas, na altura a colheita de vinho, em anos regulares atingia as 10 mil pipas, chegando a exporta\u00e7\u00e3o a fazer-se em grande escala para as demais ilhas do Arquip\u00e9lago, Portugal e estrangeiro, sendo que, a sua apreci\u00e1vel qualidade tornou este g\u00e9nero o mais importante ramo de com\u00e9rcio da ilha.<\/p>\n<p>As excel\u00eancias dos vinhos adquiriam tal fama que por volta de 1571 a exporta\u00e7\u00e3o se fazia j\u00e1 em avultado n\u00famero de pipas. Em 1612, a exporta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se pretendia fazer para o Brasil, Angola e pa\u00edses do Norte.<\/p>\n<p>O vinho produzido em S\u00e3o Jorge era t\u00e3o acreditado que diferentes pra\u00e7as de guerra se forneciam deste. Em 1690, por ordem do provedor de fazenda, foram 25 pipas de vinho. A Corveta inglesa <em>Lucia<\/em>, o capit\u00e3o Jo\u00e3o Lya, em 24 de julho de 1752, recebeu nas Velas 109 pipas.<\/p>\n<p>Em Maio de 1723, compareceu na C\u00e2mara de Velas, o irland\u00eas Theobaldo Marghee, capit\u00e3o do navio<em> Santa Brizida<\/em>, afim de carregar vinhos a neg\u00f3cio para o reino de Inglaterra, prometendo voltar em Outubro do mesmo ano, com algumas fazendas e um ou dois filhos seus para venderem e estabelecerem neg\u00f3cio nas Velas.<\/p>\n<p>A fama do vinho da Ilha de S\u00e3o Jorge era tanta que este foi o \u00fanico vinho dos A\u00e7ores que marcou presen\u00e7a na grande ceia da Inaugura\u00e7\u00e3o da Est\u00e1tua Equestre de D. Jos\u00e9 I, em Lisboa <em>(14)<\/em>, entre uma lista de 22 vinhos estrangeiros (franceses, espanh\u00f3is e italianos), sete Madeiras e alguns nacionais.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o evento deu origem a grandes festividades, das maiores entre todas que o Pa\u00eds tem assistido <em>(15)<\/em>.<\/p>\n<p>O bom vinho foi ganhando cr\u00e9dito at\u00e9 que, o Capit\u00e3o General dos A\u00e7ores, Conde D\u2019Almada, por provis\u00e3o de 9 de Mar\u00e7o de 1801, para evitar especula\u00e7\u00f5es, ordenou que as pipas em que se recolhesse vinho para embarcar tivessem a marca S. Jorge.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Gaspar Frutuoso <em>(7) <\/em>referia que \u201c<em>em toda a ilha h\u00e1 trigo e vinhos em abastan\u00e7a pera a terra, e alguns se carregam pera as outras ilhas, principalmente Faial e Graciosa. Em bom ano se recolher\u00e3o perto de tr\u00eas mil pipas de vinho, que se bebe na terra e carrega pera fora e bebem forasteiros, que v\u00eam ali muitos por causa do bom porto que tem na vila das Velas, onde se acolhem navios com temporais, e nas Velas v\u00e3o anaimar as suas e surgir seguros<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A comprovar que havia anos em que a produ\u00e7\u00e3o de vinho na Ilha de S\u00e3o Jorge atingia uns bons litros, est\u00e1 entre a correspond\u00eancia do Capit\u00e3o General dos A\u00e7ores, Henrique da Fonseca da Sousa Prego, um of\u00edcio de 28 de Junho de 1830 <em>(8)<\/em>, a solicitar ao Reino vasilhame para o <em>dizimo do vinho da Ilha de S. Jorge<\/em>.<\/p>\n<p>Infelizmente o vinho de S. Jorge, com a sua reputa\u00e7\u00e3o, foi vendido como se noutra ilha fosse produzido, como reporta o oficial da marinha Sueca Jean Gustave Hebbe<em> (9) <\/em>que, em \u201c<em>Descrip\u00e7\u00e3o das Ilhas dos A\u00e7ores<\/em>\u201d, com informa\u00e7\u00f5es obtidas no fim de 1800 e in\u00edcios de 1801, referia que \u201c<em>S\u00e3o Jorge exporta annualmente 1.000 pipas de vinho, que pela maior parte vae para o Fayal<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO<em>s vinhos e aguardente exportados como sendo do Fayal, vem geralmente do Pico e de S. Jorge (\u2026) Do Fayal tamb\u00e9m sahem alguns carregamentos de vinho para a Terceira e S. Miguel. Esta tamb\u00e9m recebe do Pico e de S. Jorge\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Em 1702, a Estat\u00edstica de Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola <em>(10)<\/em>, conta que em S\u00e3o Jorge se produzia 10 mil pipas de vinho, apenas atr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o do Pico que chegava \u00e0s 20 mil pipas. O Faial na altura n\u00e3o tinha registo de produ\u00e7\u00e3o de vinho.<\/p>\n<p>Por volta de 1800, a busca pelo vinho de S\u00e3o Jorge era muita, principalmente da Ilha do Faial, para depois o exportar. Marcelino Lima <em>(11)<\/em>, recorda que o neg\u00f3cio dos vinhos era o que mais preocupava as entidades da Horta, onde a \u00e2nsia do lucro arrastava o comerciante \u00e0 ilegalidade. H\u00e1 registo duma empresa que solicitou ao Governo Interino dos A\u00e7ores permiss\u00e3o para importar de S. Jorge 200 pipas de vinho, sob pretexto de que, sendo o vinho destinado ao Reino, n\u00e3o o podia beneficiar naquela ilha, nem os navios o podiam l\u00e1 carregar. Revela Lima que \u201c<em>sabia-se que o pedido era sofisma, os vinhos entravam, mas para lutar com os do Pico. Em virtude do seu baixo pre\u00e7o davam margem a maiores lucros<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Foram v\u00e1rios os historiadores que corroboraram de que em S\u00e3o Jorge e no s\u00edtio dos Casteletes, se fazia do melhor vinho dos A\u00e7ores.<\/p>\n<p>Segundo J. Duarte de Sousa <em>(6)<\/em>, \u201c<em>j\u00e1 no princ\u00edpio do s\u00e9c. XVII a produ\u00e7\u00e3o vin\u00edcola regulava de 7 a 8 mil pipas e quando j\u00e1 n\u00e3o avultava a colheita das vinhas da Queimada, as melhores da ilha, que haviam sido destru\u00eddas pelo famoso vulc\u00e3o de 1580 e as quais produziam cerca de 1.500 pipas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em 1897 escrevia o autor que \u201c<em>grande parte da regi\u00e3o coberta de arvoredo, tinha algumas nesgas de terreno ar\u00e1vel, fraqu\u00edssimos peda\u00e7os de vinha nos s\u00edtios mais apropriados \u00e0 sua cultura e ainda grandes tratos de lava, que n\u00e3o verdeja planta alguma<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Toda esta extens\u00e3o de solo ub\u00e9rrimo, transformado em charnecas e pedreiras pelos famosos vulc\u00f5es de 1580 e 1808, e foi assim mesmo at\u00e9 ao ano de 1854, o melhor peda\u00e7o de te toda a ilha, o mais estimado e lucrativo. Foi a regi\u00e3o de vinhas, que produziam assombrosamente, sem maior disp\u00eandio nem desvelados cuidados, quando as videiras carregavam imensamente, lan\u00e7adas sobre as faias mais velhas e gigantescas.<\/p>\n<p>As vinha da Queimada, aniquiladas pelo vulc\u00e3o de 1580, produziam j\u00e1 na \u00e9poca 1.500 pipas, e de toda a ilha, dera no ano de 1582 cerca de 10.000 pipas, segunda c\u00e1lculos muito regulares.<\/p>\n<p>Ora, exatamente o Vulc\u00e3o da Urzelina em 1808 <em>(16) <\/em>foi o princ\u00edpio do fim da vinha dos Casteletes. \u201c<em>No dia 1 de Maio de 1808, tremeu a terra t\u00e3o frequentemente que se contavam oito tremores por hora\u2026Das 11 para as 12 do mesmo dia, outro tremor, e juntamente num estrondo t\u00e3o grande que a todos atemorizou, e de repente se viu levantar uma nuvem de fumo sobre o mais alto monte da Freguesia, \u2026 e em breve tempo engrossou e subindo ao mais alto c\u00e9u fez arco sobre parte da Freguesia das Manadas e Urzelina, indicando um terr\u00edvel castigo j\u00e1 mostrando nas redobradas e negras nuvens.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2026Logo no mesmo dia choveu tanta areia de tarde que ficaram as casas cobertas de areia e os campos dali para cima em partes ficaram com altura de 7 palmos, e as vinhas dos casteletes at\u00e9 \u00e0 Ermida de St\u00aa Rita da Freguesia das Manadas, ficaram cravadas e as casas quase abatidas com o peso, saindo l\u00ednguas de fogo do centro que chegavam ao c\u00e9u\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u201cA<em>s vinhas dos Casteletes ficaram enterradas at\u00e9 ao lugar de Santa Rita, nas Manadas, e muitas casas estiveram em perigo de se abaterem com o peso da areia que sobre elas caiu!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Mas como um mal nunca vem s\u00f3, no ano de 1854 as vinhas foram atacadas pelo <em>oidium tukeri<\/em>, e desde ent\u00e3o esse pr\u00f3spero com\u00e9rcio de vinho d\u2019outr\u2019ora ficou completamente aniquilado. Lavradores remediados em rela\u00e7\u00e3o a este g\u00e9nero, ficaram pobres. Os campos de vinhas bem depressa se encheram de Silvados, por n\u00e3o serem suscet\u00edveis d&#8217;outra cultura <em>(5)<\/em>.<\/p>\n<p>Mais tarde depois de 1874, o Bar\u00e3o do Ribeiro, Francisco Jos\u00e9 de Bettencourt e Avila, desenvolveu novos trabalhos nas vinhas da sua propriedade do Ribeiro, freguesia da Urzelina, obtendo recompensador resultado. Seguiram-lhe o exemplo o dr. Miguel Teixeira Soares, D. Martha Joaquina Pereira da Silveira e o sr. Amaro Soares d&#8217;Albergaria, os quais nos \u00faltimos anos eram, por assim dizer, os lavradores de vinho branco na ilha.<\/p>\n<p>Segundo Avelar \u201c<em>os ricos propriet\u00e1rios dr. Miguel Teixeira Soares e sr. dr. Jos\u00e9 Pereira da Cunha da Silveira, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos conservavam engarrafados vinhos do s\u00edtio dos Casteletes, do primeiro quartel do seculo, que rivalizavam com Os do Porto. Aquele cavalheiro ofereceu algumas garrafas que enviou \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de Paris, em 1867, sendo muito apreciada a excel\u00eancia da sua qualidade\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>O terreno da Freguesia da Urzelina, na maior parte de origem vulc\u00e2nica, presta cultura da vinha, que desde os primeiros tempos at\u00e9 1854 foi a sua principal riqueza, por ser a parte da ilha que mais produzia vinho.<\/p>\n<p>Nesse ano em que o <em>oidium tukeri<\/em> destrui as vinhas encheram-se os terrenos de mato. A Freguesia da Urzelina foi a mais que sofreu na ilha com a mol\u00e9stia da vinha, dando lugar \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o e escasseou o trabalho do povo.<\/p>\n<p>Facto que foi relatado tamb\u00e9m em 1906 por Silveira Moniz <em>(4)<\/em>, \u201c<em>h\u00e1 100 anos a ilha de S. Jorge era tida como boa regi\u00e3o vin\u00edcola. O odium, por\u00e9m, devastou-lhe todos os vinhedos, a ponto actual produ\u00e7\u00e3o ser insignificante, n\u00e3o chegando mesmo para seu pr\u00f3prio consumo. Ainda assim o pouco vinho que produz \u00e9 de superior qualidade, sendo muito apreciado o dos Casteletes e Urselina<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em 1886 viu-se a chegada de mais uma doen\u00e7a da vinha: a antracnose. Nesse ano o agr\u00f3nomo distrital de Angra adiantava que nas tr\u00eas ilhas, Terceira, Graciosa e S\u00e3o Jorge, tinha aparecido uma mol\u00e9stia na vinha semelhante ao o\u00eddio. O Verdelho, a antiga casta dominante, permanecia a mais atacada <em>(12)<\/em>.<\/p>\n<p>No caso de S\u00e3o Jorge, onde o <em>o\u00eddio <\/em>continuava a fazer grandes destrui\u00e7\u00f5es, a filoxera s\u00f3 chegaria anos mais tarde. Seria em 1897, numa visita \u00e0 ilha realizada pelo agr\u00f3nomo distrital Duarte Patten de S\u00e1 Viana, que se encontrariam fortes marcas do parasita.<\/p>\n<p>No Concelho de Velas encontrou-se a mesma invas\u00e3o nas vinhas de Amaro Soares de Albergaria, nos Casteletes, e da viscondessa de S\u00e3o Mateus, nos Terreiros. Esta pequena Ilha seria de todos os antigos e principais territ\u00f3rios produtores dos A\u00e7ores aquele onde as destrui\u00e7\u00f5es provocadas pelos agentes fitopatol\u00f3gicos foram mais importantes e definitivas. Apesar das v\u00e1rias tentativas, realizadas durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX, a exporta\u00e7\u00e3o de vinho perdeu, em S\u00e3o Jorge, a enorme centralidade que havia tido at\u00e9 \u00e0 primeira metade deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Duarte de Sousa <em>(6)<\/em> deu igualmente conta deste fat\u00eddico acontecimento. Em 1854 o oidium invadiu os vinhedos e destrui-os por completo, aniquilando a riqueza principal da ilha. As vinhas estavam mesmo velhas e exaustas e n\u00e3o resistiram ao terr\u00edvel parasita. Ca\u00edram no primeiro ataque.<\/p>\n<p>Ricos propriet\u00e1rios de vinhas ficaram nesse ano pobres, e a ru\u00edna concorreu para o engrandecimento daqueles que s\u00f3 possu\u00edam terrenos de natureza diferente e que subiram logo de valor. Come\u00e7ou-se ent\u00e3o a dispensar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria dos lactic\u00ednios e ainda \u00e0 cultura da laranjeira, que afinal pouco resultado deu.<\/p>\n<p>Alguns propriet\u00e1rios na \u00e9poca quiseram restaurar a vinha, como meio de aproveitamento desse campo desprezado e que no tempo dos vinhos t\u00e3o precioso e rico era.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o do Ribeiro foi o que mais trabalhou nesse empenho, e conseguiu que as suas vinhas produzissem regularmente mais de vinte pipas por ano, as quais foram vendidas a pre\u00e7o de 60$00.<\/p>\n<p>Conta Duarte de Sousa que tamb\u00e9m o Sr. Amaro Soares de Albergaria, que possui pr\u00e9dios no cora\u00e7\u00e3o da melhor regi\u00e3o vin\u00edcola, tem sido incans\u00e1vel, de uma persist\u00eancia austera. Tem querido, por\u00e9m, aproveitar a vinha de verdelho pelo excelente vinho que produz e por isso tamb\u00e9m as colheitas n\u00e3o t\u00eam correspondido aos seus esfor\u00e7os, sen\u00e3o apenas em qualidade, pois o seu vinho branco Casteletes \u00e9 precioso.<\/p>\n<p>Relata ainda que muitos outros propriet\u00e1rios de vinhas de menor escala trataram nos \u00faltimos anos de as restabelecer, por\u00e9m de uma maneira incompleta, pelo que a pujan\u00e7a das vinhas \u00e9 ef\u00e9mera.<\/p>\n<p>As vindimas de 1896 foram abundant\u00edssimas, superiores \u00e0s necessidades do pr\u00f3prio consumo da ilha, o que representou n\u00e3o pequeno aux\u00edlio para a economia, porque a importa\u00e7\u00e3o desse g\u00e9nero subia a uma dezena de contos.<\/p>\n<p>De salientar ainda que ao longo da hist\u00f3ria vitivin\u00edcola, distinguiram-se alguns produtores como Jo\u00e3o In\u00e1cio de Bettencourt Noronha, que nas suas propriedades na ilha de S\u00e3o Jorge, onde se produzia os vinhos Verdelho e Terrantez <em>(17)<\/em>.<\/p>\n<p>Este vinho, era levado desembarcado na Ba\u00eda de Villa Maria, na Ilha Terceira, onde depois era engarrafado no solar Villa Maria. Era depois exportado para Inglaterra e outros pa\u00edses. Os seus r\u00f3tulos mais antigos datam de 1905 e 1910 e representam um dos mais antigos r\u00f3tulos vin\u00edcolas dos A\u00e7ores<em> (18)<\/em>.<\/p>\n<p>_____________________________________________________________<\/p>\n<p>(1) Descri\u00e7\u00e3o dos A\u00e7ores por Andr\u00e9 Brue, <em>in<\/em> Archive dos A\u00e7ores, N\u00ba 61, Vol XI, 1890.<\/p>\n<p>(2) Sousa, J.S.A. 1822, Corographia A\u00e7\u00f3rica.<\/p>\n<p>(3) Borba, A. 1996, <em>in <\/em>Revista Verdelho, n.\u00ba 1, ano I.<\/p>\n<p>(4) Silveira Moniz, A.M. 1906, Terras A\u00e7oreanas \u2013 Notas Chorogr\u00e1phicas e Hist\u00f3ricas, Ilustradas.<\/p>\n<p>(5) Avellar, J.C.S. 1902, Ilha de S. Jorge \u2013 Apontamentos para a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>(6) Duarte de Sousa, J. 2003, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Ilha de S. Jorge \u2013 Apontamentos Hist\u00f3ricos e Descri\u00e7\u00e3o Tipogr\u00e1fica <em>(1\u00aa edi\u00e7\u00e3o foi publicada em 1897<\/em>.<\/p>\n<p>(7) Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, 1963, livro 6, cap. 33\u00ba, Instituto Cultural Ponta Delgada.<\/p>\n<p>(8) Archivo dos A\u00e7ores, Vol XI, 1890.<\/p>\n<p>(9) Descri\u00e7\u00e3o das ilhas dos A\u00e7ores por Jean Gustave Hebbe, <em>in<\/em> Archivo dos A\u00e7ores, N\u00ba 60, Vol X, 1890.<\/p>\n<p>(10) Archivo dos A\u00e7ores, N\u00ba 58, Vol X, 1889.<\/p>\n<p>(11) Lima, Marcelino, 1943, Anais do Munic\u00edpio da Horta (Hist\u00f3ria da Ilha do Faial).<\/p>\n<p>(12) Paulo Silveira e Sousa, 2004, Para uma hist\u00f3ria da vinha e do vinho nos A\u00e7ores (175-1950).<\/p>\n<p>(13) Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, 1963, livro 6, cap. 34\u00ba, Instituto Cultural Ponta Delgada.<\/p>\n<p>(14) Revista Municipal Lisboa, N\u00ba4, 2\u00ba trimestre de 1983, artigo de Fernando Castelo-Branco.<\/p>\n<p>(15) Oliveira, Eduardo Freire, Elementos para a Hist\u00f3ria do Munic\u00edpio de Lisboa, 1\u00aa parte, TOMO XVII, 1911.<\/p>\n<p>(16) Archivo dos A\u00e7ores, Vol V, 1883.<\/p>\n<p>(17) Wikip\u00e9dia: https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo\u00e3o_In\u00e1cio_de_Bettencourt_Noronha<\/p>\n<p>(18) Bagos d\u2019Uva (blogue): http:\/\/bagosdeuva.blogspot.com\/2011\/03\/castellestes-um-vinho-de-s-jorge.html<\/p>\n<p>(19) Bagos d\u2019Uva (blogue): http:\/\/bagosdeuva.blogspot.com\/2011\/03\/castellestes-um-vinho-de-s-jorge-2.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVinho de S\u00e3o Jorge dos Casteletes\u201d Ao falar da ilha de S\u00e3o Jorge, e mais concretamente do ponto de vista econ\u00f3mico, o primeiro pensamento que<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/13556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=13556"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/13556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13922,"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/13556\/revisions\/13922"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/freguesiadeurzelina.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=13556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}